Alimentação no primeiro ano de vida

Aleitamento materno e diversificação alimentar

“O leite materno é o alimento mais adequado para uma criança nos seus primeiros meses de vida, sendo raras as situações em que o seu uso está contra-indicado.
Sendo um alimento completo e que apresenta outras vantagens além das nutricionais, deve ser, sempre que possível, a base da alimentação do bebé no primeiro ano de vida.
Quando um bebé não pode ser amamentado ao peito, o leite materno deve ser substituído por uma das fórmulas de leite adaptado existentes no mercado, preparadas a partir de leite de vaca modificado, de forma a aproximá-lo tanto quanto possível da composição do leite de mulher.
A alimentação nos primeiros meses de vida deve ser exclusivamente à base de leite (materno ou adaptado), fazendo-se o desmame e a introdução progressiva de novos alimentos de acordo com a maturação do aparelho digestivo do bebé, e com a sua evolução na área do desenvolvimento psicomotor.”

O que é a diversificação alimentar?

A diversificação alimentar é a introdução de qualquer alimento diferente do leite humano ou do leite adaptado na alimentação do bebé, que assim passa de um regime exclusivamente lácteo par um regime alimentar diversificado.

Em que idade se deve fazer a diversificação alimentar?

“De acordo com as normas do ESPGAN, (European Society For Pediatric Gastroenterology and Nutrition) a introdução de novos alimentos, ou diversificação alimentar, deve ser feita entre os quatro e os seis meses de vida.
O leite de uma mulher saudável e bem alimentada tem uma composição adaptada ao crescimento da espécie humana nos primeiros seis meses de vida; assim,se a criança está a fazer aleitamento materno , pode mantê-lo como alimento exclusivo até essa idade.
A introdução mais precoce de outros alimentos , entre os quatro e os seis meses , está indicada se a criança toma um leite artificial, ou quando há outros factores a ponderar, como o regresso da mãe à sua actividade profissional, por exemplo.”

Durante quanto tempo pode manter-se uma alimentação exclusivamente à base de leite?

“A partir do segundo semestre de vida o leite, humano ou artificial, não é suficiente para cobrir as necessidades energéticas e nutritivas, tornando-se necessários outros alimentos complementares , que forneçam nutrientes, vitaminas e ferro.
Se a criança mantiver uma alimentação exclusivamente láctea depois dos seis meses , corre o risco de não manter uma progressão adequada de peso, desenvolver anemia por falta de ferro e sofrer carências vitaminicas.”

Porque é que a introdução de novos alimentos só deve ser iniciada entre o quarto e o sexto mês de vida?

“A idade aconselhada para introduzir novos alimentos na alimentação do bebé, para além das necessidades nutritivas já referidas, está associada a factores de maturação e desenvolvimento do aparelho digestivo, da função renal e do sistema nervoso central.
O bebé entre os quatro e os seis meses torna-se capaz de se sentar com ajuda, tem um bom controlo da cabeça e do pescoço, inicia movimentos de mastigação, usa a língua para introduzir alimentos na boca e está apto a aceitar comida de consistência mole, dada à colher. Antes desta idade possui um reflexo que o leva a projectar com a língua os alimentos colocados na sua extremidade anterior, o que dificulta a administração de alimentos à colher.
Por outro lado, antes dos quatro meses de idade as funções digestiva e renal do bebé são imaturas, o que torna prejudicial a oferta precoce de outros alimentos.”

Quais são as desvantagens da introdução precoce de novos alimentos?

“A introdução precoce de novos alimentos interfere no aleitamento materno, aumenta o risco de aparecimento de alergias alimentares, altera a regulação do apetite, aumenta o risco de infecções e prejudica o funcionamento do rim.
A insuficiente coordenação dos movimentos de mastigação dificulta a adaptação aos alimentos sólidos.”

Qual é habitualmente o primeiro alimento oferecido a um bebé que inicia a diversificação alimentar?

“O primeiro alimento que habitualmente se oferece ao bebé a seguir ao leite é a papa de cereais.
O bebé que inicia a sua diversificação alimentar tem de se adaptar não só a uma nova consistência dos alimentos (que passam de líquidos a semi sólidos e depois a sólidos), mas ainda a novos sabores. A maior proximidade de sabores entre o leite e a papa facilita a adaptação do bebé aos novos alimentos, mas não há nenhum inconveniente se o primeiro alimento oferecido for a sopa de legumes.”

Com que intervalo se devem introduzir os novos alimentos?

Os novos alimentos introduzem-se de forma individualizada (um alimento de cada vez), com intervalos de três a cinco dias, para observar o possível aparecimento de intolerâncias alimentares e dar tempo ao bebé para se acostumar aos novos sabores.

Qual a sequência habitual de introdução de novos alimentos ?

“A introdução de novos alimentos deve ser feita progressivamente, obedecendo às capacidades digestivas da criança e retardando a oferta de alimentos com maior potencial alergénico.
O calendário da diversificação alimentar deve ser o seguinte :

0 – 6º mês Leite materno ou leite adaptado
4º -6º mês Cereais sem glúten
5º -6º mês Frutas, verduras e carne
7º -8º mês Cereais com glúten
8º -9º mês Iogurte natural
8º -10º mês Gema de ovo, peixe branco
12º mês Leite de vaca inteiro, ovo inteiro”

Que tipo de papas de cereais se utilizam na alimentação dos bebés?

“Apesar da grande variedade de papas existentes no mercado, podemos classificá-las em dois grandes tipos: as papas lácteas e as papas não lácteas.
As papas lácteas são aquelas que contêm leite na sua composição, devendo ser preparadas apenas com água; as papas não lácteas não têm leite e devem ser preparadas adicionando-as ao leite utilizado pelo bebé.
Até ao sexto mês as papas dadas ao bebé só devem conter cereais sem glúten.”

O que é o glúten e porque é que se desaconselha a sua administração antes dos seis meses de vida?

“O glúten é uma proteína existente nalguns cereais (trigo, centeio, cevada e aveia), causadora de uma reacção de intolerância a nível intestinal, nalgumas crianças portadoras de uma doença hereditária que se chama Doença Celíaca.

A doença Celíaca, que pode afectar crianças ou adultos, manifesta-se nas crianças a partir do primeiro contacto com alimentos que contenham glúten. Esta doença manifesta-se por diarreia persistente, aumento insuficiente de peso, atraso de crescimento, má absorção dos alimentos e desnutrição.
O facto de se introduzir um pouco mais tarde as farinhas com glúten (depois dos seis meses) não impede o aparecimento da doença Celíaca, mas adia as suas manifestações para um período menos frágil da vida da criança.”

Como se prepara a sopa de legumes?

“A sopa de legumes deve ser, inicialmente, fluida e à base de batata, cenoura e um pouco de azeite, aumentando-se progressivamente a sua consistência até se tornar um puré. Posteriormente, e a intervalos regulares, devem ser introduzidas verduras e outros legumes.
A carne, adicionada em pequenas quantidades entre o quinto e o sexto mês, até atingir cerca de 40 gramas por dia, deve ser passada juntamente com os legumes.
Embora se possa enriquecer a sopa com a utilização progressiva de novos legumes e realçar o seu sabor com o uso de temperos como salsa e coentros, não deve utilizar-se sal porque o seu uso está contra-indicado no primeiro ano de vida , por representar uma sobrecarga para o rim e poder predispor o aparecimento de Hipertensão Arterial.”

Quais são os alimentos que apresentam maior risco de causar alergia se forem introduzidos precocemente?

“Embora qualquer alimento potencialmente possa ser causador de uma alergia, há certos alimentos que têm maior poder alergénico, devendo evitar-se a sua introdução precoce, particularmente se há história familiar de alergias.
Por este motivo, o peixe só deve ser administrado por volta do 8º mês, a gema de ovo entre o 8º e o 10º mês, enquanto a clara do ovo, os morangos, a laranja, e o kiwi só se devem dar depois dos 12 meses.”

Que tipo de iogurtes devem ser dados aos bebés?

“O iogurte que se dá antes do 1º ano de idade deve ser o iogurte natural, sem açúcar, a que se pode adicionar fruta fresca passada, ou 2 bolachas tipo Maria.
Deve evitar-se dar aos bebés iogurtes de sabores porque são enriquecidos em açúcar.”

Os bebés devem comer alimentos com açúcar?

“O açúcar, tal como o sal, deve estar totalmente ausente da alimentação no 1º ano de vida, porque predispõe ao aparecimento de obesidade, diabetes e cáries dentárias.
O açúcar que existe de forma natural em alimentos como o leite, a fruta, as batatas, etc. é suficiente para as necessidades do organismo.”

Que suplementos vitamínios e minerais é preciso dar no primeiro ano?

“Há poucas situações em que é necessário dar vitaminas a um bebé saudável.
Se a criança está a fazer aleitamento materno, recebe um alimento completo, adaptado à sua espécie, que lhe fornece todas as vitaminas, com excepção da vitamina D.
Se toma um leite adaptado, o leite encontra-se suplementado com as vitaminas necessárias ao crescimento da criança, de acordo com normas internacionais.
Assim, as crianças amamentadas a peito devem receber um suplemento diário de 400 U. I. de vitamina D, que deixa de ser necessário quando passam a tomar leite adaptado.
Os filhos de mães vegetarianas necessitam ainda de um suplemento de vitamina B12, porque as dietas vegetarianas são pobres nesta vitamina.
As outras vitaminas necessárias ao organismo existem em quantidade suficiente na dieta normal de uma criança saudável. Devemos ter presente que algumas vitaminas, como a A e a D, são perigosas se administradas em excesso.
Uma criança tem reservas de ferro suficientes para os primeiros meses de vida, quando se alimenta só de leite materno, reservas que são repostas com a introdução dos novos alimentos. Os leites artificiais são suplementados em ferro.
Se um bebé é prematuro traz no organismo reservas reduzidas de ferro, devendo fazer um suplemento de ferro a partir do 2º mês de vida.
O Flúor deve ser administrado apenas a criaças com elevado risco de cárie dentária, e sob orientação médica.
Actualmente, em vez de gotas de flúor, aconselha-se a lavagem dos dentes com uma pasta com flúor em dose adaptada á idade da criança, desde o aparecimento dos primeiros dentes.

Porque é que não se deve dar leite de vaca inteiro antes dos doze meses de idade?

“O leite de vaca está adaptado ao crescimento muito rápido da espécie bovina no 1º ano de vida. Por esse motivo o seu teor de proteínas é muito elevado em relação às necessidades da espécie humana, o que provoca uma sobrecarga renal prejudicial e inútil.
O consumo de leite de vaca inteiro provoca ainda perdas microscópicas de sangue gastro-intestinal, que associadas ao seu baixo teor em ferro, aumentam a incidência de anemia por carência de ferro aos 12 meses de idade.
Por estas razões, na impossibilidade de dar leite materno, devemos utilizar até ao ano de idade um leite adaptado, que apesar de derivado do leite de vaca, se aproxima nas suas características do leite da mulher.”

Qual é o número de refeições adequado quando se faz a diversificação alimentar?

“Na idade em que se faz a diversificação alimentar a criança faz habitualmente cinco refeições, prescindindo da refeição da noite até ao fim do primeiro ano.
Quando se inicia a diversificação alimentar, começa-se por substituir uma das refeições de leite, geralmente o almoço, por uma papa láctea sem glúten.
Ao fim de algum tempo, depois da criança se adaptar ao uso da colher e ao sabor da papa, inicia-se a sopa de legumes ao almoço, passando a dar-se a papa à hora do jantar. Quando a criança começa a comer papa ao jantar pode deixar de pedir a refeição de leite da noite, ficando apenas com quatro refeições. Terá então uma refeição de leite ao acordar e outra ao lanche, uma sopa com carne seguida de fruta ao almoço, e uma papa láctea ao jantar.
Este esquema de quatro a cinco refeições mantém-se até aos doze meses, podendo a partir dos nove ou dez meses fazer-se duas refeições de legumes com carne ou peixe numa delas apenas, alternando a papa com o iogurte ou o leite à hora do lanche.”

Autor: Dra Ana Ferrão

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